terça-feira, dezembro 19, 2006

O Zangado

O que Vasco Pulido Valente pensou antes de ser cronista - para ser bem sucedido é preciso explorar um nicho de mercado; tenho de criar uma persona. Quando for cronista vou personificar o Anão Zangado da Branca de Neve. Aí está algo de que nunca ninguém se lembrou.

Ele alimentava esta ideia desde muito novo. O plano funcionou. O que é curioso é que o Zangado foi uma escolha tardia, porque a princípio ele ainda andou hesitante entre o Feliz e o Atchim.

Cabelo de Freitas do Amaral é de pura lã virgem


Freitas do Amaral pertence àquele grupo restrito de gente cujo cabelo é de pura lã de ovelha. Freitas recebe um subsídio especial do Estado, já que o seu cabelo é um importante produto de exportação de luxo. Ele nega ter um antepassado ovino na família, mas lá vai dizendo que tem parentes afastados na Nova Zelândia e que "há hibridações que vêm por bem".

quarta-feira, outubro 05, 2005

Viagem à Eslávia - O cromo de Budapeste


De visita ao parlamento. demasiada opulência para ter piada, mas a escadaria é bonita, impressiona qualquer bimbo como eu. foi a primeira e única visita guiada forçada que fizemos, mas ao fim ao cabo valeu a pena. Dizemos à senhora da bilheteira: “queremos dois bilhetes para agora, para a visita em inglês”. E ela: “Tem uma visita em espanhol daqui a 15 minutos”. “Queremos para a visita em inglês”. “Tem em espanhol daqui a 15 minutos.” “Queremos em inglês.” O guia era um típico guia deste tipo de visitas guiadas. uma seca. monocórdico, o discurso saía todo de rajada, sem uma única oscilação de entoação. O homem dava a entender que já tinha feito aquilo tantas vezes, que só podia ter surpresas durante o seu dia de trabalho se o yeti lhe saltasse ao caminho e lhe arrancasse o pescoço à dentada. e mesmo assim. as próprias piadas de algibeira eram levadas na torrente monocórdica; já não havia sequer a preocupação de timings. só se percebia que era uma piada, porque ele se ria no fim, a fazer as vezes de gargalhada enlatada. e as pessoas riam-se, essa é que é a parte fixe. nada como uma boa gargalhada enlatada para provocar o riso. o pessoal das sitcoms sabe o que faz. é pavloviano. ou ivanoviano. ou assim do género. zubizevanoviano. mas não era este O cromo de budapeste.
os americanos. netinho e avó.
ela toda pintada. típica americana exuberante. estilo velha californiana ou floridiana carmen miranda. unhas pintadas de cor berrante. cores vivas por todo o lado. muita quinquilharia. um festival ambulante.
muito se extrovertia ela. muito comunicava. extravasava emoções. toda ela era alegria de comoção. parecia que estava num constante choro de felicidade. devia estar de volta à europa coitadita, depois da grande viagem que fez em pequenininha para a terra das oportunidades com a família – que só levava meio mel-rei no bolso e um quintal de barricas de aveiro.
já o neto era viscoso, sempre a querer agradar à avó, mas tudo a soar a falso, a nojo. estava sempre armado em esperto, em aluno bem comportado, constantemente a opinar e a fazer perguntas interessadas ao guia. mas não dava uma para a caixa. enterrava-se a cada pergunta de regurgitante curiosidade. geralmente o guia respondia o oposto do que ele tinha sugerido.
30 e poucos anos. feições bonitinhas. olhinho azul. ar de quem engata todas as gajas giras com coeficiente de inteligência abaixo de 14. é um parasita. nunca fez nada por iniciativa própria, porque teve sempre alguém que fizesse por ele. e já não sabe como fazê-lo. é aqui que entra a avó.
estava sempre pronto a responder às solicitações da senhora, fosse por via oral fosse pelo tacto. ela exprimia o seu fascínio pelas riquezas patrimoniais ou pelo declínio da Europa e o netinho prontamente respondia com qualquer coisa de suposta pertinência para qualquer tertúlia intelectual. era mau demais para ser genuíno.
Já dentro da sala do parlamento, depois de o guia pôr o botão no play e discorrer sobre as mil e uma maravilhas do parlamento húngaro e dos feitos magiares, a senhora não se contém, carrega no pause do guia e, qual erupção de lava, cospe todo o seu amor e deslumbramento por aquele lugar, dizendo que era das coisas mais bonitas que já tinha visto e que grande riqueza que aquilo era e que era difícil encontrar qualquer coisa parecida no resto do mundo e era importante que as pessoas percebessem o valor de uma coisa assim, que era preciso portanto conservar. tudo isto com uma emoção tal nas palavras que – sem ponta de ironia – me impressionou. não é que não fosse previsível, mas é sempre um espectáculo impressionante, para o bem ou para o mal. mas eis que oportunamente, e para rematar esta cena memorável, o netinho desliza o seu braço pelo ombro da avó e deixa-o lá pousado, após solene silêncio. como quem diz: “estiveste bem, avozinha.” foi um bonito gesto de cumplicidade familiar. eu, pela minha parte, tive uma reacção de nojo visceral tal, que só queria que me apontassem a saída de emergência. foi das manifestações de afectividade pública mais artificiais que já vi. “bring me a bucket to throw up”, Meaning of Life dixit.
nada mais na visita conseguiu ofuscar a qualidade daquele momento.

devo dizer que simpatizei com a avó. uma velha gaiteira, que respirava vida e de sentimento genuíno. mal sabe o neto que tem. ou se calhar até sabe. desejo-lhe um resto de vida positivo. já o netinho, meu Santo Deus, haja incineração. se eu fosse imperador romano, o meu polegar virava-se para baixo.



Posto Escrito: gosto muito desta foto. tem qualquer coisa de poético, qualquer coisa de, como direi, imperceptível.

para quem não percebeu é a escadaria do parlamento. está ali uma coisa pomposa. uma coisa como deve à ser. a própria sissi já passou por aqui. ou então não. aliás, a sissi continua muito viva no imaginário daquela gente. será que este pessoal não cresce? perdoem-me a ruindade, sei que poderei ser desagradável, ou mesmo deselegante, dirão alguns, especialmente para os milhões de austro-húngaros a viver em portugal e que visitam o meu blog a título póstumo, mas eu e o meu amigo hugo – rapaz de real fineza e categoria – inventámos um nome de filme que pensamos estar à altura dessa divindade que foi a sissi. Podia ser “Sissi das meias altas”, mas não, não é, não enveredamos por esse estilo de ordinarice, é “Sissi, a imperatriz do anal”. bem me parecia que iam achar pouco pujante. para a próxima tentaremos melhor.

“This must be one of the most beautiful parliaments in Europe!” “yeah, gran’ma, it sure is. It’s the most beautiful thing I’ve ever seen!”

domingo, setembro 25, 2005

Viagem à Eslávia - O cromo de Cracóvia


No bar da discoteca. Uma e tal da manhã. Ligeiramente tocado. Algum barulho de discoteca.

- Éx portuguêx, não éx?
- Sou.
- Logo vi.
(silêncio. o que dizer.)
- As miúdas aqui são muita giras, não são?
- Oh. Ixto aqui não é nada de xpecial. Eu ‘tive na Ucrrânia e lá ax gachax são muito melhorex. dão 50 a zero a extax. 50 a zero.
- A sério?
- Tou’ta dizere. 50 a zero.
- Bem, isso é impressionante. Mas eu estive em Budapeste, e apesar de ver muitas raparigas giras, acho que isto aqui ainda é melhor. Mesmo muito bom.
- Ixto aqui não é nada. A Ucrrânia é que é. Aqui ainda vêx umax miúdax com algunx defeitox, uma celulitezinha, ax medidax um bocado dexproporcionadax. max na Ucrrânia aquilo é impecável. Não vêx uma falha. Parecem todax modelox. Xculturaix. Altax, cinturinha de vexpa, corepox perfeitox.
- A sério?
- Tou’ta dizere. 50 a zero. E depoix vaix a Odessa e tás assim numa xplanada em ferente à peraia e terazem-te champagne pa distribuire pelo pessoal todo da mesa.
- Pelo pessoal todo?
- Pelo pessoal todo, gachax incluídas. Terazem-te uma garrafa de gin do melhore por 7 contox.
(pausa à espera de reacção impressionada. não percebo nada de álcool.)
E depois terazem-te feruta na peraia.
- Fruta na praia?
- Terazem-te feruta na peraia. Uma bandeja completa. Feruta na peraia.
- Isso é bom.
- É um xpectáculo. Tenx d’ir a Odessa.
- Pois, a Ucrânia deve ser giro, mas desta vez não dá. Já estivemos em Budapeste e ainda queremos ir a Praga e Berlim. Por isso, não fica muito em caminho. Mas já percebi que vale a pena.
- É um xpectáculo. Terazem-te feruta na peraia. Ouve, e tu aqui, com as gachax, tenx mêmo é de avançare. Elax fazem-se de xquisitax à perimeira, max se tu insistirex, conseguex.
- Ai é?
- Tenx é de insistire. não podes desistire, porque é só preciso quebrare a perimeira barreira. não é como em portugal, que ax gachax são todax aremadas em xquisitax. é claro que depoix aquilo só dá para uma noite. max, eh pá, é o que dá, é o que dá. é mêmo assim.
- pois.

O cromo de cracóvia veste camisa branca com quatro botões desapertados e muito pelâme do peito à mostra. mesmo muito pelâme. é um beto surfista que usa fiozinho ao pescoço com uns ossículos a imitar minúsculos dentes de baleia. moreno. cabelo encaracolado. olhos castanhos. um macho latino.

O cromo de Cracóvia foi para a pista de dança e fez a sua aproximação a duas norueguesas, ou qualquer coisa loira do género. aproximou-se o mais que pôde. peito erguido. pelâme bem à mostra. mãos no ar e movimentos de anca lentos e jingões.

não levou nada. nem das norueguesas nem de nenhuma. passado meia hora já não o via na pista. perdi-lhe o rasto para sempre. que saudade.

quarta-feira, julho 20, 2005

Guerra dos Mundos

Fui ver a Guerra dos Mundos. Gostei muito. Sorvi aquela bela banhada do princípio ao fim, com os olhos bem abertos de regalo, qual criança que descobre pela primeira vez que existe um canal de desenhos animados. “O quê, só dá desenhos animados? O dia todo?” Ao que se segue qualquer coisa semelhante a um orgasmo, mas que a criança só mais tarde virá a identificar como tal. Não direi que o filme teve o mesmo impacto em mim, nem lá perto, mas que o sorvi com deleite, lá isso sorvi. Fui lá para ver uns belos efeitos especiais e foi isso que me deram. Por isso gostei.

É claro que passada a parte dos elogios, chegou a altura dos “mas”. “Sim, sim, gostei muito, mas”. Mas o argumento é claro que metia água por todos os lados. Sendo que a principal metidela de água, como toda a gente com certeza percebeu, é a forma súbita e ridícula como os ETs morrem. De repente, quando parece que ainda vamos no equivalente a metade da II Guerra Mundial, qq coisa como a campanha da Rússia, e achamos que os aliens ainda têm uns truques na manga, eis que já acabou e está tudo morto. Tudo. Não sobra um. E de que é que morreram? De gripe. É ridículo. Os bacanos preparam a invasão com o mesmo zelo com que a minha mãe fazia malas para irmos um mês para o algarve, segundo dizem com milhões de anos de antecedência (sim, a minha mãe tb), e depois é isto? Gripe? Devem tar a gozar comigo. E eu quero lá saber que no livro também seja assim, é estúpido na mesma. Qualquer pessoa, aliás, qualquer babuíno sabe que se quiser ir, por exemplo, aos trópicos, tem de passar primeiro pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical para levar umas vacinas e aqueles seres que são 65% cérebro não se lembram da gripe? C’um catano. Acho que o final deste filme merecia constar no No Comment do Euronews.

Outra parte interessante é a forma muito mal conseguida como este filme encaixa a lamechice. Nada de novo, portanto. Para já, o Tom Cruise não convence nada como pai daquele matulão de 16 anos, e depois a sensação que dá é que ainda bem que houve guerra interplanetária apocalíptica, porque senão era muito complicada a reconciliação entre pai e filhos. Parece que a guerra serviu apenas como pretexto, como uma mera injecção de palha, para que aquele pai pudesse ter o tão desejado reencontro com os filhos.

De resto, apenas mais umas pequenas palermices, que embora abundantes, só aqui menciono algumas minhas preferidas, como uma câmara em forma de anaconda que é um bocado surda para mecanismo de alta tecnologia, porque não ouve pequenos estalidos, só grandes escarcéus, e que deixa a interrogação de qual será o ponto em que ela passa do não-ouvir ao ouvir; a personagem do tim robbins que mal aparece se põe a amolar a faca como as velhas das anedotas sombrias que nos contavam em miúdos “era uma vez uma velha, a afiar o facalhão (pausa), para barrar a manteiga no pão” e é mais ou menos isso que faz o tim robbins, que parece que ameaça ser um pedófilo do mais alto coturno, e que vai matar o tom cruise e violar a miúda, mas afinal não passa de um bronco desajeitado com uma certa tendência para o suicídio involuntário fácil, depois de ter demonstrado grande prudência em esconder-se ali caladinho; depois a casa da mãe das crianças, em Boston, não sofre um único arranhão, sim, eu sei que boston é chique, mas daí até àquele bairro escapar à chacina, vamos com calma, até porque a placa da cidade e a estátua de um pai fundador ou lá o que era, estavam bem cheias daquelas ramificações nhanhosas; e por fim os ETs não são assim muito inovadores, são qualquer coisa entre um Gremlin e o Alien, e têm um aspecto fofinho, para nos lembrar que mesmo os seres/animais/pessoas de aspecto fofinho podem fazer coisas más/feias/desagradáveis, o que é uma importante lição a tirar.

Mas isto não interessa nada, são só mesquinhezes, o que interessa são os comboios em chamas, o som das naves, a pulverização das gentes, etc., isso sim é o filme, o resto é segundo plano, é o fundo.

sábado, julho 09, 2005

Alberto Caeiro

Quem me dera poder não ser deprimido
E gostar de dinheiro e comer gajas
Em vez de andar a apreciar o Sol e a Lua
E o vento que passa
Quem me dera ser um preto dos vídeos da MTV
Essa é que é essa

Quanto é que será que custa um T2 na Graça?
Não deve ser barato
Mas não faz mal, porque eu não me preocupo com
Essas coisas mesquinhas e materialistas
Eu gosto é das crianças inocentes e dos rios que correm e passam
Aquela gaja é mesmo boa
Mas isso não interessa
Porque as gajas não são boas, elas são aquilo são
E porque é que é havemos de adjectivar as gajas?
Aliás eu nem gosto de gajas, eu gosto é das flores
Porque as flores, as plantas, e assim essas coisas
Fazem parte da Natureza e não do Homem

Gajas, gajas, gajas
Pouco me importam
As gajas
Além disso as gajas custam dinheiro e eu não tenho dinheiro
A não ser que eu conseguisse vender estes poemas
por umas boas massas
Talvez se eu fosse ter com um editor meu amigo
Mas eu fiquei com o chapéu-de-chuva dele.
Gamei-lho no outro dia.
E acho que ele percebeu. É melhor não ir ter com ele.
Oh, mas eu também não gosto de dinheiro
Nem de gajas
Eu gosto é das ervas silvestres. E de álcool.
Porque o álcool é uma coisa e não é um homem.
E eu não gosto de homens. Nem de gajas.

*

Eu amo muito as coisas. Amo o fervilhar da Natureza
Amo o sol, a lua, as árvores, os rios
Amo a vida em suma
Mas preferia estar morto
A minha vida é uma seca
Ainda por cima não tenho ido ao ginásio
e estou com uma barriga que até dói

Dizem-me para ir a um psiquiatra
Mas que sabem os psiquiatras das coisas
Que sabem eles da brisa, dos bois, dos porcos?
Da brisa dos porcos? Da brisa que vem dos bois
Depois de vir dos porcos?
Nada. Não sabem nada.
Só sabem pensar e encher-nos de pensamentos de porcaria
Tanto pensamento para nada
Não percebem nada, a Natureza é que é fixe
Vivo em felicidade plena,
Aquilo que espero é aquilo que vejo
E aquilo que vejo é tudo
Não preciso que me encham de interpretações
e metafísicas da treta
Estou muito bem assim

Amanhã vou matar-me

*

Quero cá saber das gajas
Que me adiantam elas?
Não é que eu seja panasca
Que não sou
É assim, eu gosto de gajas
Mas para que é que eu preciso de gajas
Se tenho as pedras, as silvas e os cactos?
Realmente no outro dia não conseguia dormir
Porque há 40 anos que não dou uma
E 40 anos já é um bocado para não dar uma
Mas não interessa
Porque tenho as pedras, e os rios e a Natureza
E isso chega-me bem
O problema é não conseguir dormir
E dormir é positivo porque está de acordo com a Natureza
Por isso se calhar até podia arranjar uma gaja
Mas é melhor não, porque ela depois pode querer pensar
E eu estou mais numa de sentir
Só se eu arranjasse uma que estivesse numa de sentir
Mas ela depois ia querer ter filhos e não há pachorra
Não me interpretem mal, não é que não goste de crianças,
Até gosto. E da inocência delas e assim essas coisas
Só que depois elas crescem e transformam-se em homens
E de homens é que eu não gosto
Só de gajas
Quer dizer, também não gosto de gajas
Mas gosto mais do que de homens, embora também não muito
Mas não sou paneleiro
Vou beber qualquer coisa

*

É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural
O meu problema é que tenho uma depressão brutal
Ainda por cima
Acabei de fazer um verso que rima
O que é coisa que não me anima
Que merda de heterónimo que eu inventei
Que não gosta de comer gajas, nem de dinheiro, nem de pessoas
Onde é que eu estava com a cabeça?
Mas agora já é tarde,
Porque as pessoas estão à espera que eu diga
que gosto é da Natureza e essas coisas
E se não vender poemas depois também não posso ir à Brasileira
E aquilo é caro.
Ainda por cima o Euro não facilita nada as coisas
Que gaita. Só se eu inventar outro heterónimo
É isso! Mas a quantos heterónimos é que um escritor tem direito?
É melhor ligar para a Sociedade Portuguesa de Autores
É melhor não. Tenho vergonha.
Bem, vou inventar heterónimos e depois logo se vê
Que se lixe

Terceiras pessoas e idiossincrasias de empregados de balcão

Gosto muito das pessoas que falam delas próprias na terceira pessoa. Se eu não soubesse que elas eram esquizofrénicas, diria que eram incrivelmente convencidas. Mas sendo assim, tenho de lhes dar o devido desconto.

Quando essas pessoas começam a dizer, “porque o jardel isto... porque o jardel aquilo...” estou sempre à espera que alguém as interrompa e lhes diga: “Ou seja, você!” E elas respondam: “Pois, eu. Peço desculpa, é que eu sou esquizofrénico e isto está sempre a acontecer-me. Ainda bem que me interrompeu, senão eu ainda passaria por convencido, e não... não, eu quero é que as pessoas percebam e tenham bem presente que eu sou esquizofrénico.”

Mas dentro da pequena percentagem de não esquizofrénicos que recorrem a esse tipo de discurso, quem é que eles se julgam afinal? Quem é que fala de si próprio na terceira pessoa?
Só quem se acha o máximo. Acha-se tão acima dos outros mortais, que quer fazer ver aos outros que estão perante um deus. E é preciso realçar isso bem. É preciso falar de si próprio muitas e muitas vezes na terceira pessoa, até que as pessoas percebam bem que estão perante um deus. Eu acho que eles só desistem, quando a outra pessoa disser: “Você é um deus.” Ao que eles respondem: “Pois sou.” E então aí voltam à primeira pessoa do singular.





Também ainda não percebi muito bem os empregados de loja de supermercado que por mais coisas que a pessoa peça, respondem sempre num tom monocórdico e enjoado: “É só?” Mas o que é que se passa com esta gente? Quanto é que a pessoa tem de pedir para eles deixarem de fazer esta pergunta? E será que isso alguma vez acontece?
- Olhe se faz favor, são quatro bifes do lombo, 200g de fiambre e 100g de paio.
- É só?
- Acrescente também 10 garrafas de whisky, 20 embalagens de cif gel e 50 esfregões Bravo.
- É só?
- Pode ser também um Continente, dois Feiras Novas e sete Intermarchés.
- É só?
- Pode ser a Europa, o Médio Oriente, o resto da Ásia, a América e dois terços do Círculo Polar Árctico.
- É só?
- Podem ser dois Júpiteres, catorze Sistemas Solares e setenta e nove Big-Bangs.
- É só?
Mas onde é que isto pára? Será que eles alguma vez param para nos dizer: “Parabéns, você comprou a quantidade de artigos suficientes que lhe permitem deixar de ouvir esta pergunta. Deixe-me dar-lhe um beijinho. Game Over.” Ou será que a pergunta não tem mesmo fim? E se tiver fim, como é que será? A sério que estou curioso. Eu acho que eles é que têm a chave sobre a extensão do universo. Não são os físicos, nem os astrónomos, nem os matemáticos, são os empregados de supermercado. Eles é que sabem a extensão do universo. Se alguém quiser saber, que lhes pergunte, que eles sabem.

batatas fritas light

Batatas fritas light. Não sei porquê, mas há aqui qualquer coisa que não me soa muito bem. É que para mim, batatas fritas light, é a mesma coisa que dizer “poço nojento de gordura light”. E há qualquer coisa num poço nojento de gordura que, por incrível que pareça, não costumo associar a emagrecimento. Até pode ser feito com o melhor óleo do mundo, que aquilo que eu continuo a ouvir é “este poço nojento de gordura foi feito com o melhor óleo do mundo” e não sei porquê isso não me anima. Ainda dou o benefício da dúvida a outros produtos “light”, ou a produtos palermas como o Actimel, que forma bolhas estúpidas à volta das pessoas, mas batatas fritas light? Vamos com calma. Eu posso ser parvo, mas há uma fronteira de estupidez que eu consigo reconhecer. Acho eu. Mas será que o facto de rotular uma coisa de “Light”, é logo sinónimo de produto de emagrecimento? E se assim é, o que dizer do Leite Gordo? Terá o seu lugar no futuro da humanidade, ou caminha para a extinção? “ó soutor, eu tenho-me sentido um pouco mais gorda ultimamente.” “Ah pois, isso é porque a senhora anda a beber demasiado leite gordo, o que a senhora precisa é de batatas fritas light. De manhãzinha, mal acorde, em vez de beber um bom copo de leite, a senhora vai enfiar com 100 g de batatas fritas light no bucho.” “Acha, soutor?” “Acho, acho, minha senhora. Nem outra coisa me faria sentido.” E agora que há batatas fritas light, o que é que se segue, banha de porco light, castrol gtx light? E se estas batatas são feitas em óleo de girassol rico em ácido oleico com Omega 9, o que virá a seguir, batatas feitas em óleo de girassol rico em ácido oleico com bífidos activos e provitamina B5? A resposta a estas e outras perguntas no número 12.600 do Expresso.

sexta-feira, julho 08, 2005

Carta

Querida esposa,

espero que te estejas a divertir com esse outro senhor com quem decidiste ir viver. Por aqui está tudo bem, como de costume, eu continuo a ser um tipo divertido e as pessoas em geral gostam de mim. Esta semana aconteceu foi uma coisa chata, matei uma pessoa. Era importante para mim que ela morresse, que é para os outros perceberem como é que elas mordem, porque é muito desagradável ter de aturar esta gente que insiste em ir na faixa do meio. Tive de atirar o homem contra os rails com o camião, não me restavam muitas alternativas.

Mas vê lá tu a coincidência, a mulher dele mora no nosso bairro e então veio bater-me à porta num pranto, uma coisa parva: “porque é que matou o meu marido? porque é que matou o meu marido?” E eu com uma infinita paciência lá lhe expliquei: “ó minha senhora, o seu marido ia na faixa do meio.” Calou-se. Bem, mas não queiras saber a berraria que para ali foi. Um disparate. Nisto aparece o vizinho polícia, o Jaime: “Já sei que matou o senhor Filomeno. Escusava de ter matado o homem, podia só ter-lhe enfiado um balázio no crânio” “Ah pois, isso é muito bonito de se dizer, ó Jaime, mas e eu ter de estar sempre a desviar-me, porque suas excelências insistem em ir na faixa do meio, não conta? Além disso, eu acenei para ele se desviar.” “Ah bom, não sabia que tinha acenado.” Lá se foi embora. Mas como vês não estava fácil convencê-lo. Eu também nunca gostei muito dele. Já desde a outra vez em que lhe fui pedir um molho de coentros e ele me aparece com um raminho de salsa, que topei logo a pinta do tipo. Nunca gostei dele. E pronto, é isto. Beijinhos e cumprimentos ao outro senhor.

Sempre teu,
José

Saber estar

Acho piada às pessoas que usam a expressão:
“É preciso saber estar. Aprecio uma pessoa que saiba estar.”
De facto, é bom estar perante uma pessoa que sabe estar. Uma pessoa que sabe estar à mesa, enfim, uma pessoa que sabe estar. É importante saber estar. Saber estar nas putas. Saber estar na merda. Saber estar com pessoas que não nos dizem nada. Saber estar contente. Saber estar aprazível. Saber estar tetraplégico. Saber estar morto. Saber estar com alface nos dentes. Saber estar encontra o Petzi. Uma Aventura com o Saber estar. Saber estar na droga. Saber estar com um piaçaba na mão. Saber estar com o corpo crivado de balas. Saber estar na Faixa de Gaza. Saber estar com Alzheimer. Saber estar com convulsões. Saber estar a ser chato. Saber estar a ser mordido por um doberman. Saber estar a ir em sentido contrário na auto-estrada. Saber estar sem oxigénio. Saber estar a não ter piada. Saber estar a cumprir os critérios de convergência. Saber estar com logótipos parvos no vidro do carro. Saber estar debaixo de um tractor. Saber estar a ser amputado contra vontade própria. Saber estar na Câmara do Comércio do Porto. Saber estar perante uma pessoa de bem. Saber estar na câmara de gás com elegância. Saber estar a manter os medicamentos fora do alcance das crianças. Saber estar a pedi-las. Saber estar numa equipa jovem e dinâmica, com óptimas perspectivas de progressão de carreira e valorização profissional. Saber estar de bem com a vida. Saber estar complicado obter descontos no passe intermodal antes dos 65 anos de idade. Saber estar é saber evitar pessoas que abusam de perfume. Saber estar há séculos para ir visitar a professora de biologia do liceu. Saber estar na altura de parar com isto. Saber estar e os 40 ladrões.

quinta-feira, julho 07, 2005

O raça dos pombos

Vivo eu nesta casa há mais anos que o Matusalém viveu na galileia ou lá no raio que o parta algures na israeleia, e nunca tinha visto pombos cá para os meus lados. Os meus lados são S. João do Estoril, perto da estação, naqueles prédios vermelhos, eu tenho 27 anos, quase 28, meço um 1,70, nasci em S. Jorge Arroios junto à Portugália e prefiro chocapic a choco krispies. Pois não é que estava eu a sair calmamente do meu banho, envolto numa nuvem de fumo qual star trekiano que se materializa, e começo a ouvir um arrulhar de pombos junto à janela da casa de banho. “olha, que giro, pombos. Nunca tal houvera visto”. Mal sabia eu o que me esperava. É que os pombos não são uma gente que brinca, eles quando vão para algum lado vão para colonizar. Não há cá palhaçadas. Um pombo é um bicho feito para ganhar terreno. E porquê, pergunto eu? Haverá animal mais estúpido, mais desengonçado, mais apatetado do que aquilo? Porque é que em tantos animais tinha logo de ser o pombo um dos mais bem sucedidos? Alguém me explica isto?

E desde aquele primeiro episódio na casa de banho – ao qual até achei piada – tem sido um não parar de arrulhar ou lá o que é que os pombos fazem. Ainda por cima, pelo que me apercebo, devem estar na época de acasalamento, de maneira que o agitamento é mais que muito. É testosterona a transbordar por todo o lado. E hoje, então, foi a machadada final. Estava eu calmamente a tentar dormir, naquela fase irritante da manhã em que acordamos não se sabe bem porquê e depois tentamos concentrar-nos para voltar a adormecer, quando um cabrão de um pombo, com a testiculagem cheia, decidiu pôr-se a arrulhar mesmo no parapeito da minha janela. Com este calor não tenho outra solução senão ter a janela aberta, de maneira que bati no estore para ver se ele se ia embora. E ele ia. Só que depois voltava, claro, e sempre com a mesma boa e velha pujança na testiculagem. Quem vai dominar o mundo não são os chineses. A terceira guerra mundial vai ser entre gaivotas e pombos. Aí sim, vamos ter o verdadeiro apocalipse. Tanto uns como outros estão apenas a ganhar posições para o confronto final. Elas montaram o quartel-general nas Berlengas, eles na Ópera de Paris e nos Restauradores. Mas o Armageddon não deve tardar. A única diferença é que neste caso só há maus. Apenas o mal triunfará. É uma final viciada. É como ter duas equipas italianas na final da Liga dos Campeões. Só pode sair merda. Desculpem lá esta nota final sobre futebol, mas básico como sou, as minhas analogias só podem invariavelmente ir parar ao desporto. Enfim, nada a fazer.